REFLEXÃ0

ISOLAMENTO SOCIAL – SEMANA 8 E 9

Débora Böttcher Lessa
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Hoje contamos 71 dias em isolamento social e nessas duas últimas semanas, a impaciência se fez soberana.

De um lado, notícias cada vez mais estarrecedoras; do outro, um núcleo de pessoas cada vez mais obtusas (pra usar um termo “chique”).

Mas comecemos pelos assuntos leves: sou daquelas pessoas que gosta de um tipo de rotina: vou sempre ao mesmo restaurante, faço compras nos mesmos supermercados e lojas, acesso os mesmos sites de notícias.

Mas não tenho hábitos arraigados e mora em mim uma total ausência de comprometimento com horários – exceto se tenho hora marcada, que acho o cúmulo do desrespeito deixar alguém esperando. Fora isso, não sou da turma do café da manhã às oito, almoço ao meio dia, jantar na hora do jornal regional, cama às onze.

Fui criada de forma muito livre, sem amarras, por pais bem liberais – rigidez nunca foi lei lá em casa. E isso me favorece nesses tempos de isolamento, onde tudo está mesmo fora do lugar e a estabilidade se mostra uma utopia.

O paradoxo é que quando tudo parece estar parado, está mudando como nunca e, assim, a gente vê a rotina se alterar de uma maneira que nunca imaginaríamos.

Do jeito de fazer compras – aqui é quase sempre on-line -, a guardar – numa logística que vai de borrifar tudo com água sanitária a ensaboar frutas e legumes -, da limpeza excessiva com mãos, roupas e sapatos ao pânico de esquecer algum detalhe, a paranoia nos persegue. E basta espirrar pra parar tudo e ir atrás do termômetro, coração aos pulos e mente em frenesi: “terei tocado em algo sem proteção? estarei “covidada”?” Santa Clara dos Stress nos proteja e nos dê discernimento e calma.

A quarentena tem nos feito constatar coisas que, ate então, não tinham muita pertinência. Por exemplo, o fato de termos muito mais bolsas que pijamas, e de como esse segundo elemento tem se mostrado muito mais relevante nesse novo dia a dia, quando a preguiça impera, levantar da cama é mais difícil e começar o dia demanda mais esforço.

Nesse novo contexto, não pesa apenas o que se tem pra fazer, mas tudo aquilo que não se pode executar e ainda o que tem que fazer diferente. E aí, qualquer rotina mínima cai por terra: todo dia, em pequenos detalhes, a gente tem que (se) reinventar – e, por aqui, vamos criando hábitos novos.

***

Politicamente falando, desde 2016, quando me dei conta de que não podia continuar alheia à turbulência em que mergulhava o país, decidi ignorar muitos que pertencem à tal camada de humanos que se intitula gente de bem – os amarelinhos,  bolsonaristas e simpatizantes da direita.

Tentando evitar me contaminar pelo ódio, tratei de me afastar dos defensores de quem prega a tortura como forma natural de extermínio, de um certo tipo de comportamento que classifico como burrice pura ou uma falsa ingenuidade com a qual estão sempre se defendendo por compactuar com um governante que me dá vontade de vomitar cada vez que ouço a voz.

Nas redes sociais, eliminei todas as amizades que julguei indesejadas e mesmo agora que observo arrependimentos tardios, continuo passando ao largo – não é uma gente confiável (antes quase elegeram Aécio Neves!), não quero retomar o contato. Se não sei que a pessoa tem esse viés fascista – mesmo imaginando que o tem -, vou seguindo com cara de paisagem; se ela demonstra, aí já não posso mais: é bloqueio certo.

É nesse momento que me vejo – uma defensora ferrenha da Democracia -, com uma indignação que me torna antagônica: ando a desprezar a opinião alheia. Não tenho paciência para a ignorância, a desculpa rasa, o disparate de quem defende o indefensável.

Pra mim, não está mais valendo a célere frase de Voltaire: ”Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante seu direito de dizê-la.” Quer dizer: pode falar à vontade, só não vou escutar, menos ainda levar em conta.

Sei  que não se pode avaliar tudo a ferro e fogo, branco ou preto; todos temos tantas nuances de cinzas, e não dá pra dizer que somos só isso ou só aquilo. Mas prefiro me distanciar de quem não me faz bem – essa é uma máxima que a gente tem que levar à risca quando fala em bem-estar e deve ser considerada em qualquer tempo – ainda mais nesses!

E nas últimas semanas ficou ainda mais impossível tolerar os defensores desse governo – o mundo o deplora! Temos um Ministro do Meio Ambiente que defende a ilegalidade como estratégia de atuação e que prima por burlar a lei em todas as esferas. Uma Ministra de Direitos Humanos que quer mandar prender Governadores e Prefeitos que tentam proteger a vida. Temos um Ministro da Educação que não tem nenhuma compostura e um Ministro da Economia que se soma a esses como uma gente intragável sob todos os aspectos. Fora o óbvio, agora escancarado de vez pelo ex-Ministro Sérgio Moro – por quem não nutro nenhuma simpatia -, e não deixa dúvidas de que esse governo é ainda mais corrupto que seus antecessores – coisa que só não viu antes quem não quis.

Tem ainda os ataques cotidianos à imprensa (foi hoje que alguns jornais desistiram de acompanhar parte do Planalto, coisa que já deveriam ter feito há muito tempo, mas que nos remete claramente aos tempos da Ditadura, quando queriam calar os meios de comunicação), a ideia de armamento – que favorece as milícias – e por aí vai. Quem tinha medo do PT transformar o Brasil numa Venezuela, pode se esconder debaixo da cama.

Só não rio de quem em 2018 me chamou de ladra (quem ia votar no PT era assim classificado) e debochou de que não ia dar para o meu candidato professor, porque eu também pago a conta das escolhas dessa gente que é, no mínimo, muito imbecil.  E de quem quero distância, mesmo que se mostre arrependida – o que acontece, de fato, a poucos.

Quem conseguir passar pela pandemia, verá que se Bolsonaro não cair, o caos será nossa única situação. SOS Brasil.


Dados da ArcGis

Débora Böttcher Lessa

Débora Böttcher Lessa

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Administra esse site.

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